Neste trecho especial do rio Paraná, em território argentino, tudo é possível. Até mesmo uma emocionante pescaria de dourados e pintados gigantes. Confira.

Textos e fotos Jum Tabata

Tudo começou com um encontro casual numa loja de pesca. Ao deparar-me com dois gaúchos quase idênticos falando empolgadamente de pescaria, logo reconheci os irmãos gêmeos Daniel e Diego, que já apareceram nas páginas de nossa PESCA ESPORTIVA. Atuando como guias especializados em trechos argentinos do rio Paraná, os dos irmãos transmitiram de imediato sua completa paixão pela pesca e por seu trabalho – o de levar turistas brasileiros para experimentar as emoções da pescaria de gigantes na Argentina. Ao perguntar sobre como andavam as ações por aquelas paragens, uma notícia ótima: além de peixes de couro, a época era propícia à pesca dos grandes dourados.

Logo em seguida, uma notícia melhor ainda: eu era convidado de honra para uma pescaria em Ita-Ibaté, na província de Corrientes, onde os gêmeos garantiam que "o bicho estava pegando" . Claro que o convite foi aceito de prontidão.

Depois de algumas semanas, aconteceu o reencontro, desta vez já no aeroporto de Porto Alegre, onde um confortável ônibus nos aguardava para partir na direção de São Borja, fronteira do Rio Grande com a Argentina. Acompanhei um grupo de pescadores de São Paulo que já conhecia o esquema da pescaria e garantiram que a pescaria era quente mesmo. Foram cerca de oitocentos quilômetros de muita troca de informação entremeados por curtos cochilos, invariavelmente invadidos por sonhos literalmente dourados e pintados, todos "tamanho extra-G", claro.

 

O motor-home da Gêmeos Turismo aguarda os pescadores para seguir ao hotel na cidade de Ita-Ibaté, Argentina

 

NAS ÀGUAS DE ITA-IBATÉ

O primeiro dia foi de reconhecimento e aquecimento dos braços, já que a pescaria era de piaparas com isca natural; no caso, a tradicional isca de milho, devidamente fervido com antecedência para formar o azedume que tanto atrai o interesse de "bogas" (piaparas), pacus e pircanjubas. As piaparas de fato apareceram, tanto em quantidade como em tamanho. Essa pescaria, feita no sistema de "rodadinha", é feita no fundo com chumbadas entre 30 e 50 gramas, variando conforme o poder da correnteza. Detalhes preciosos que ajudaram a aumentar o número de peixes na linha nesta pescaria em particular foram o tamanho do chicote, entre 90 cm e 1,20m de linha transparente 0,40 mm, e a espessura da linha principal. Usei 0,28 mm que, diante do forte arraste das águas do rio, possibilitou boa sensibilidade para sentir o toque muitas vezes sutil da piapara na linha. Anzóis pequenos tipo maruseigo, suficientes para segurar um ou dois grãozinhos do cereal. Uma pescaria realmente deliciosa e na minha opinião, indispensável para quem visita o Paranazão. A pescadora e amiga Andréa, da loja de Pesca de Pinheiros, que o diga: em sua primeira pescaria na Argentina, o sorriso estampado em seu rosto era do tamanho dos peixes que ela pescava.

 

O tamanho médio das piaparas foi um sinal positivo do que ainda estava por vir. Andréa, à esquerda, exibe outra grande piaparas

Havia, no entanto, uma pessoa mais irrequieta que as outras na calma pescaria de piaparas: tratava-se do nosso guia Christian, que logo revelou a vontade de largar mão de peixes tão "pequenos" como as bogas e partir para o verdadeiro jogo com os grandes amarelos. Tudo estava programado para crescer gradualmente, afinal, se os peixes estavam à nossa espera, podiam esperar mais um dia.

A "cara de mau" do douradão. As mandíbulas sugerem impressionante força na mordida. Abaixo, Diego mal consegue segurar o dourado gigante, capturado na pesca de rodada com isca natural.

O GIGANTE AMARELO

O céu, no entanto, não quis assim. Quem aumentou muito da noite para o dia foi o vento. Ita-Ibaté amanheceu com céu nublado e chuvoso, o que pela época do ano (começo de verão), segundo Daniel, era bastante incomum. Do alto da barranca onde eu estava hospedado, a simpática cabana da "Tia Rosita", podíamos avistar com clareza a formação de densas ondas de espumas brancas, que costumamos chamar de "carneirinhos" no litoral brasileiro. Como não tínhamos outra escolha senão pescar, enfrentamos o mau tempo como bons esportistas e fomos à luta.

A idéia era corricar iscas especiais para a pesca de dourado, as populares Alfer´s, Cucú e Iberá, todas de fabricação argentina e específicas para essa pescaria. As de dourado se assemelham bastante a crankbaits de barbela longa tipo Shad Rap, com a diferença de serem bem maiores e mais reforçadas. Mesmo com as grandes ondas dificultando a navegação e jogando um pouco a lancha para todos os lados, a isca trabalhava na profundidade adequada e vinha em linha reta, transmitindo enorme vibração na ponta da vara.

Nesse sistema, navega-se em baixas rotações, indo na maior parte das vezes paralela ou diagonalmente à margem, em sentido contrário ao da correnteza. Horas e horas de tentativas, mas nada de resultados. Levando em conta que corrico não é das minhas modalidades preferidas, pode-se imaginar o desânimo que começava a pairar sobre a embarcação. Christian, o guia, também estava desolado.

SONHO DOURADO

À nossa volta, alguns dos pescadores do grupo foram mais privilegiados, fisgando belos dourados e fazendo valer a crença de que havia bons peixes no rio. Uma das lanchas, porém, fazia diferente, descendo o rio ao sabor da correnteza. Ali estava o gêmeo Diego que, em companhia de Andréa e do guia Chico (lê-se Titcho), aproveitava a brisa para tomar um chimarrão. Mas, como anzol fora d´água não pega peixe, ele iscou um mussum vivo e o botou pra rodar rio abaixo.

No meio da conversa, um toque firme na ponta da vara. Diego a tomou nas mãos, fisgou e ... nada, linha bamba. Sem tempo para lamentações, o peixe (seria o mesmo ?) voltou e pegou a isca novamente, sendo seguido de outra ferrada do pescador, que resultou em novo fracasso. Chico, bastante amigo do jovem pescador, começou a caçoá-lo, condenando-o por estar usando anzol 6/0, "mucho pequeño para la bocarra del doradón". A cena ainda se repetiria mais uma vez, quando o guia já recomendava que Diego desistisse de fisgar o peixe. O pescador não se intimidou, dizendo que dessa vez o bicho podia vir que ele estava preparado. Quando de fato a linha retesou novamente, Diego simplesmente virou-se de costas,

apoiou a vara no ombro e deu a fisgada literalmente com o corpo todo, praticamente percorrendo todo o interior da lancha à medida que dava vigorosos trancos com a vara, em pequenos passos. Este relato parece uma mentira, mas a história pode ser confirmada por todos os que estavam a bordo e nas imediações.

Quando cheguei perto, a briga já havia começado há algum tempo, com todos muito curiosos para saber que peixe atrevido era aquele que por três vezes atacou, largou e voltou para pegar a isca, sem se assustar com as violentas fisgadas sofridas. Diego suava e falava pouco, até que um enorme corpo sacudiu a cabeça e deu um salto desajeitado e pesado, caindo na água "como um bujão de gás". Era um dourado descomunal, cujo peso, estimado próximo dos vinte quilos, tranqüilamente estourou o limite de 15 kg da balança disponível. O pescador simplesmente chorou de emoção, e quase não agüentou o peso da fera. Este com certeza mereceu o retorno à seu reino, nas águas correntes do rio Paraná.

A ÚLTIMA CARTADA

Tanta adrenalina foi capaz de fazer passar despercebido nosso dia improdutivo. A bem da verdade, passamos outro dia na tentativa de pescar um grande dourado, porém sem resultados. Como a sorte amarela definitivamente não parecia estar ao meu lado, decidi tomar o rumo de ituzaingó, numa última de esperança de fisgar ao menos um peixe de couro no derradeiro dia de viagem. O tempo só piorava mas saí em companhia de Daniel e Horácio, outro guia que pesca com os gêmeos.

A isca artificial era desta vez uma Alfer´s, especial para a pesca de surubíes, com formato diferenciado e barbela especial – para a isca realmente descer fundo. Um detalhe não mencionado antes é a presença de um líder de aço de cerca de 70 cm a 1 m de comprimento antes da isca, nem tanto pelo atrito com a boca do peixe mas para evitar a ruptura pelo contato com as pedras no fundo. Os guias recomendam libragem não superior a 40 ou 50 lb, já que um aço mais espesso pode prejudicar o trabalho da isca. Bem, apesar das condições atmosféricas daquele dia serem as menos propícias possíveis, um fio de esperança mantinha a mim e Daniel firmes na espera de uma resposta, ou seria melhor dizer, uma dádiva da mãe natureza.

Daniel e Jum em parceria campeã: explosão de emoção brasileira em território argentino.

 

Ela finalmente veio, na forma de uma estridente zunida de linha que me fez saltar assustado do estado de topor provocado pelo cansaço e pelas gotas de chuva que me calam ritmadamente sobre a cabeça. Num rápido jogo de reflexo, Horácio acelerou com tudo os 100 hp´s da lancha para reforçar a fisgada. O peixe respondeu e em uma só disparada tirou dezenas de metros de linha da carretilha. A lancha foi tocada na direção do peixe, acelerei a manivela para recuperar preciosos metros de linha. A briga continuou, com outra corrida irrefreável na direção do fundo. O fio de monofilamento 0,40 mm não permitia que se forçasse o recolhimento, portanto atenção e paciência passaram a ser o nome daquele jogo. Mais algumas cabeçadas e justo quando comentávamos que a briga ainda ia ser longa, o bicho subitamente subiu à tona e apareceu com o enorme dorso acinzentado para fora, cerca de vinte metros adiante. Fomos em sua direção e pude ver de perto o tamanho da fera: um pintado enorme, lindo, meneando lentamente sua cauda larga ao lado do barco. Com alguma esforço, conseguimos colocá-lo para dentro da lancha.

Creio que nossos gritos de comemoração puderam ser ouvidos até de Ita-Ibaté, 70 km distante de Ituzaingó. Foi essa, enfim, minha despedida em grande estilo desse trecho especialíssimo do rio Paraná, em solo argentino, debaixo de chuva, vento e tudo o mais. Claro que faltou o dourado gigante na minha linha, mas esse eu deixo como pretexto para um futuro retorno àquelas águas...

 

Pesca Esportiva viajou a convite da Gêmeos Pesca Esportiva

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